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Sim, estamos a caminho de uma crise hídrica no mundo

  

Por Lúcio Big, Rodrigo Montalvão e Gabriel Ramos

Apesar de 70% do planeta ser coberto por água, cerca de 97,5% dessa massa hídrica é salgada. Dos menos de 3% de água doce disponíveis, apenas 0,4% é de fácil acesso, por estar na superfície dos solos.

A situação é ainda mais complexa porque essa água não está espalhada pelo mundo de maneira uniforme, mas concentrada em determinados pontos geográficos,  o que poderá se tornar, em breve, motivo para conflitos internacionais.

A brasiliense OUT³ – Creative Solutions, empresa que atua nas áreas de monitoramento e avaliação de projetos e comunicação de resultados lançou recentemente, em parceria com empresas estrangeiras, o Water Scarcity Clock, ferramenta gratuita que permite monitorar em tempo real o número de pessoas que sofrem de escassez de água no mundo.

Rodrigo Montalvão, da Out³, explica que o Relógio de Escassez de Água é direcionado à população em geral e tem como foco formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão.

Até 2030, o Relógio, lançado no último mês durante a Semana Mundial da Água, prevê um aumento no número total de pessoas vivendo em áreas escassas de água. De acordo com a ferramenta, o montante deve superar 2,7 bilhões até o final da próxima década.

Existem muitas razões para a escassez de água. Ela pode se dar em função de questões físicas, devido a falhas institucionais ou até mesmo à falta de infraestrutura adequada para garantir um suprimento regular. Globalmente, o uso da água ultrapassou o dobro da taxa de crescimento populacional e continua aumentando em todos os setores. Hoje, mais de 2,3 bilhões de pessoas vivem em países com  possibilidade de estresse hídrico. Apesar do cenário ser amplamente reconhecido pelos estudiosos do tema, o assunto tem recebido pouca atenção.

Nesse sentido, o Water Scarcity Clock foi desenvolvido para preencher essa lacuna, apresentando a escassez de água de maneira visual e interativa, para alertar as pessoas e aumentar a conscientização sobre a realidade desse recurso como finito.  Assim como o Relógio Mundial da Pobreza  — projeto desenvolvido pelo mesmo grupo —, a ferramenta visa estimular o debate público e a compreensão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, nesse caso – o ODS 6 – relacionado a Água Potável Saneamento. De forma resumida, pode-se dizer que o Relógio busca tornar um assunto cientificamente complexo em informação acessível a todos.

O estresse hídrico é um problema em 22 países, principalmente no norte da África e no oeste, centro e sul da Ásia. Nessas áreas, o nível de estresse hídrico está acima de 70%, indicando a forte probabilidade de escassez futura de água. No entanto, é importante observar que a escassez futura ou o estresse hídrico não afetarão apenas regiões menos desenvolvidas do mundo. Essa questão, por exemplo, já é um problema em países industrializados, como Austrália e Chipre. A parcela da população desses países afetada pela escassez de água aumentará de 26,5% e 21,3% em 2016 para 46% e 61,5% em 2030, respectivamente.

A ferramenta foi criada pelo World Data Lab, no Brasil representada pela OUT³ – Creative Solutions, em parceria com o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) e encomendada pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha). Os dados, incluindo a disponibilidade de água, cálculo do índice de escassez (situação atual), juntamente com as projeções até 2050, foram produzidos no âmbito da Iniciativa de Soluções e Futuros de Água da IIASA (WFaS).

Por meio da ferramenta, os usuários do WSC podem ver quais regiões e populações vivem em áreas com disponibilidade de água inferior a 500 m³, 1.000 m³ e 1.700 m³ por pessoa. Segundo o indicador de estresse de água Falkenmark, uma região sofre estresse hídrico quando o suprimento anual de água cai abaixo de 1.700 m³ por pessoa/ano. Em níveis entre 1.000-1.700 m³, pode ser esperada escassez periódica ou limitada e quando se chega a patamares inferiores a 1.000 m³, o local enfrenta a escassez.

Em termos globais, a análise do WSC mostrou que, em 2006, quase 2,5 bilhões de pessoas viviam com menos de 1.700 m³ de água per capita; em 2016 esse número aumentou para 2,9 bilhões (39,6% da população mundial) e a previsão é que atinja  3,5 bilhões de pessoas em 2030 (42,1% da população mundial). Especificamente em relação ao Brasil, dados de setembro de 2019 mostram que aproximadamente 31% da população vive em áreas com potencial de escassez, isto é, 12.061.500 pessoas com disponibilidade anual entre 500 a 1000m³ e; 54.340.735 com menos de 500m³.

Neste momento, a ferramenta possui apenas versão inglês, mas mais informações podem ser acessadas no site worldwater.io.

Porto Principe (Haiti) – Mulher pega água do esgoto em Boulevard 15 Octobre

Foto de Marcello Casal Jr./Ag.Brasil